O que o Veganismo tem a ver com o COVID-19?




O ano de 2020 não começou bem. COVID-19 foi anunciado em pela véspera de ano-novo, e até agora, esse vírus potencialmente mortal se espalhou em quase 200 países e matou mais de 36.000 pessoas no mundo. É considerada uma epidemia mundial, trazendo fortes impactos negativos para a economia, sistema de saúde, e o mais importante: à saúde e à vida das pessoas. Em muitas cidades, supermercados estão em falta de muitos itens, escolas estão fechadas, vôos estão cancelados e grande parte da população tem vivido em uma quarentena voluntaria. O sentimento do momento é de como se estivéssemos em uma guerra (o que não deixa de ser uma certa verdade), mas muito pior no sentido de que não podemos ver nossos próprios inimigos. Em momentos como esse, as pessoas normalmente se sentem impotentes e se perguntando se seria possível ter evitado que essa “fatalidade” acontecesse. E a minha resposta não poderia ser mais afirmativa: Sim! Se tornando vegano.


O veganismo é consideravelmente incompreendido pela maioria das pessoas que não o seguem. Geralmente, é limitado às comidas “plant-based” e à compaixão animal. No entanto, veganismo é um movimento e um estilo de vida que vai muito além de pratos saudáveis e bichinhos- é um movimento que está intrinsicamente conectado com os movimentos sociais e ambientais por despertar a consciência de todos- não apenas de ingredientes- os aspectos que envolvam um sistema que apoia qualquer crueldade. É aí que a questão do COVID-19, ou popularmente chamado corona vírus, se encaixa.

Quando as autoridades do governo chinês finalmente admitiram a existência de um vírus potencialmente mortal e dificilmente controlável, eles conseguiram achar a fonte do “breakout” relativamente fácil: o mercado de alimentos de Wuhan. A razão disso é que essa não é a primeira vez que a China é o centro de uma epidemia desse porte; todos nós podemos lembrar muito bem da epidemia de SARS em 2002, entre outras que afetaram profundamente o continente Asiático, como a gripe aviária e a gripe suína nas ultimas décadas. Não por coincidência, essas doenças tem algo bem em comum: todas elas são transmitidas por animais, e em muitas vezes, por animais selvagens.


O mercado de alimentos de Wuhan não era necessariamente popular por vender animais “normais” como porcos e frangos. Animais selvagens era a grande atração de lá. Pavões, veados, jacarés, salamandras, tartarugas, cobras, tigres e ursos- nomeando somente alguns- são algumas das espécies encontradas à venda por lá. Mercados como o de Wuhan também são conhecidos como “wet-markets” (mercados úmidos), lugares onde os animais são colocados em jaulas, artificialmente inseminados, “estocados” uns em cima dos outros em espaços minúsculos, abatidos, e finalmente, vendidos aos consumidores. Tudo isso em um só lugar, normalmente à céu aberto, e em condições sanitárias altamente deploráveis.


Quando animais são confinados durante suas vidas inteiras em espaços apertadíssimos, em jaulas empilhadas umas sobre as outras, é inevitável que eles se contaminem uma vez que os resíduos sólidos e todos os fluidos corporais são espalhados por tudo quanto é canto. Vírus, que naturalmente estão presentes nesses fluidos, ganham uma oportunidade de contaminar outras espécies ali presentes por contaminação-cruzada até chegarem à espécie humana. Vírus esses que nós provavelmente nunca teríamos contato nem conhecimento, se não fosse pelo absurdo de consumir animais, particularmente nesse caso, de animais selvagens. Isso significa que essa pandemia poderia ter sido facilmente evitada. Apesar de tudo isso, é justo pensar que provavelmente grande parte dos chineses não gostariam de consumir essas criaturas. Então por que será que eles se envolvem nessas praticas? Porque, provavelmente, eles não tiveram oportunidades melhores.


A China passou por um terrível período de fome e miséria que se perpetuou durante muitos anos da sua ditadura. Nos anos 70, mais de 36 milhões de pessoas morreram de fome, e os restantes 900 milhões estavam à beira de ter o mesmo destino. O regime ditatorial comunista tinha controle total sobre os alimentos e sobre a terra, e fortemente limitava os direitos dos cidadãos de terem acesso a eles. Não conseguindo controlar o caos, em 1978 a China permitiu a agricultura e a criação de animais privada. Grandes corporações logo monopolizaram o mercado de animais “comuns”, como porcos e frangos, reduzindo as opções dos cidadãos comuns para seus sustentos, o que os levou a caçarem e a criarem animais silvestres como alternativa para sobreviverem. Essa medida ajudou a “resolver” o problema da fome, e, portanto, o governo continuou a encorajar as pessoas a continuarem a fazerem isso. Foi então que em 1988 a China promulgou o “Lei de Proteção da Vida Selvagem”, que afirma que os animais silvestres são de propriedade do Estado e que estendia ainda mais os direitos daqueles engajados na utilização da vida selvagem como fonte de recurso para sustento. As consequências adversas dessa lei foram sentidas de várias maneiras.


Além de tirar partido da fauna chinesa, essa agora protegida atividade ajudou no crescimento do trafico de animais silvestres, muitos deles ameaçados de extinção, como rinocerontes, vendidos em mercados-úmidos como o de Wuhan. E como mencionado anteriormente, animais confinados em espaços pequenos e apertados, sendo vendidos “frescos” (abatidos na hora) no mesmo lugar, aumentam as chances de contaminação-cruzada, propagando doenças virais como a que estamos vivenciando hoje com o COVID-19.


Quando o vírus chega no corpo humano, ele rapidamente se espalha à outras pessoas se não diagnosticado e tratado a tempo, o que pode levar à uma epidemia. Ainda é incerto de qual animal primário é a fonte do COVID-19, mas cientistas estão trabalhando a todo o vapor para identificar com precisão; o que não é mais questionável é que o vírus veio de um animal selvagem. Neste momento, o governo chinês suspendeu a permissão de comercializar esses animais até que a epidemia do coranavírus esteja controlada, mas muito provavelmente irá liberar de novo assim que a situação esteja sob controle, da mesma maneira que fez quando o surto de SARS passou. E a razão principal é que tais produtos são consumidos por uma parcela muito pequena da população- a elite, que inclui o próprio governo.


Frequentemente vendidos como iguarias gastronômicas e exilies para melhorar a performance física, mental e sexual, é fácil deduzir que a maior parte da população chinesa não teria condições financeiras de consumir esses produtos considerados de “luxo”. Itens supérfluos que qualquer um poderia facilmente viver sem, até porque a maioria dessas promessas não tem absolutamente nenhuma evidencia cientifica que as comprova. Um pequeno grupo de indivíduos que claramente não se preocupa se suas escolhas pessoais são fatores decisivos que influenciam a maneira como a sociedade como um todo progride; um pequeno grupo burguês que sustenta todo esse sistema. As vantagens que essa classe tem sobre as massas é solidamente baseado no capital que ela possui, assim como na maneira que elas afirmam seu poder e distinção sobre os demais, como por exemplo, consumindo produtos como o que são vendidos nos mercados-úmidos. Muita pouca coisa pode ser feita para mudar esse tipo de comportamento entre as elites, mas muita coisa pode ser feita no sentido de criar consciência em como a interferência humana na natureza pode ser prejudicial em vários aspectos. É exatamente disso que se trata o veganismo.


Muito provavelmente, se todos no mundo fossem veganos, nós nunca teríamos passado pela epidemia do COVID-19. A não-utilização de qualquer produto de origem animal é o centro de toda a ideia do movimento. Se as pessoas fossem empáticas o suficiente com a dor e o sofrimento dos animais, mercados como o de Wuhan- ou mesmo açougues comuns- nunca existiriam. Animais comercializados são podem se movimentar livremente, experimentar seus instintos naturais, escolher o que comer, não podem sentir o sol, o vento ou a grama, são privados de se conectarem, criarem e proteger suas crias, são proibidos de terem uma vida normal e saudável. Mais além, quando esse senso de empatia se torna um estado natural do ser humano, esse senso se expande a outras esferas, como sociais e a luta de classes.


Nós sabemos que a população chinesa teve escolhas mínimas saídas para se livrarem da fome. O governo não somente limitou essas possibilidades no passado como também perpetuou o caos com seu consumo de produtos exóticos e criou leis que na maior parte do tempo servem apenas aos seus próprios interesses. Da mesma maneira, também sabemos que a agricultura familiar é uma das forças mais importantes e significativas de qualquer civilização que deseja ser sustentável e diminuir a desigualdade social, enquanto mantem uma política justa de segurança alimentar. O veganismo apoia todos esses pontos e muitos outros, como os direitos dos animais, ligeiramente mencionado nesse artigo.


Quando nos pegarmos sem esperanças, perguntando-nos o que podemos fazer em momentos delicados como este em que estamos vivendo, a melhor solução é tomar a responsabilidade por nossas escolhas de vida. Coisas como não apoiar nenhum sistema que compactue para que essas coisas aconteçam, como a indústria alimentícia ou não de produtos animais, caça, desmatamento, etc., votar em políticos que tenham visões similares e positivas desses tópicos, apoiar a agricultura local, orgânica, familiar e de comercio justo (“fair trade”), lutar para combater a desigualdade social, apoiar o movimento de minorias, criar discussões produtivas com familiares e amigos, e promover a conscientização a onde for possível, como em escolas, universidades, empresas, centros comunitários, mídias sociais, etc.

Afinal, todos nós queremos que a próxima véspera de ano-novo seja uma celebração verdadeira de esperança de dias melhores.





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